Pensei, pensei, e achei melhor terminar com o mistério: eu ainda não escrevi nada sobre Traveling Wilburys porque... porque... eu não sei NADA sobre Traveling Wilburys!!! Pronto!
Bom, sei alguma coisinha, mas acho que nem encher um post eu consigo.
Uma coisa que sei (e todo mundo sabe) é que Beatles é uma fonte inesgotável de referências musicais. É um caso à parte. Basta olhar. George Harrison, sua terceira força (terceira, veja só) foi o ator principal de milhares de coisas boas nos anos setenta (para quem duvida, ouça o álbum All Things Must Pass e depois a gente conversa). Ele andava meio esquecido nos oitenta, com umas acusações de plágio, umas histórias de adultério, traição e outras manchetes de jornal B, mas continuava sendo um Beatle, e isso não é pouco, não.
Aí eu comecei a ouvir no rádio de meu Voyage velho (logo depois roubado e nunca mais recuperado) a música"I've Got My Mind Set On You", uma balada sessentista e alegre, algo que realmente valia a pena e fazia de novo jus a George Harrison. O álbum era Cloud Nine, e fiquei esperançoso de que o cara havia voltado e de que a lacuna deixada pela morte do primeiro Beatle poderia finalmente ser parcialmente preenchida.
Não passou muito tempo e comecei a ouvir outra música com o mesmo pique. Mas tinha um "problema": O George Harrison cantava até um pedaço, depois entravam outras vozes se revezando. Uma delas parecia muito com a voz do Bob Dylan. Uma outra voz bem grossa eu tinha certeza que já tinha ouvido. Lembro ao leitor, uma vez mais, que nessa época (89, 90) não havia internet, e portanto cabia estudar. Mas as fontes eram pobres. Bizz, uns jornaizinhos mequetrefes de música, o que mais? Uma droga.
A música, "Handle With Care", trazia como intérpretes uns tais de Traveling Wilburys, uma banda composta por cinco sujeitos com sobrenome Wilbury. Se eu tivesse de imediato achado o álbum bastaria olhar a capa para saber que um deles era mesmo o George Harrison, e outro era mesmo o Bob Dylan. Então os nomes eram pseudônimos e provavelmente faziam parte de uma brincadeira. O sujeito com voz operística era Roy Orbison, alguém que naquele momento estava fora de meu espectro de conhecimento, mas que eu acabaria por conhecer melhor em 1990, na trilha sonora de "Uma Linda Mulher" com a música "Pretty Woman", um de seus maiores sucessos nos anos 60. Só que quando eu conheci "Pretty Woman" Roy Orbison já havia nos deixado (ele morreu ainda em 1988, logo após a gravação do disco Traveling Wilburys Vol. 1). E
havia ainda outros dois. Tom Petty, que eu desconhecia, e Jeff Lynne, que eu só conhecia através de sua banda ou ex-banda, Electric Light Orchestra, que eu, particularmente, não gostava. Mas os outros três valiam a pena. Valiam tanto que valem um segundo post. Dois posts de Traveling Wilburys?
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Que os quatro, como num teatro...
Este post vem com um mês de atraso, mas talvez eu coloque o post seguinte com um mês de antecedência, e aí zera...
Talvez dê para usar o título deste post, e sua menção ao teatro, para retomar o tema do Kiss e de sua pretensa "cópia" do visual dos Secos & Molhados. Pode aumentar a auto-estima brasileira (em tempos Olímpicos isso é muito conveniente), e então eu, como curioso e até estudioso, fui atrás, mas não consegui mesmo é nada. Fica aqui, por bem, estabelecido que isso deve ser mesmo exagero. E uma possível prova do exagero aparece quando tentamos enquadrar os Secos & Molhados em alguma corrente musical. A mais provável corrente para abrigá-los, em minha opinião, seria o Glam Rock, simplesmente porque o Glam Rock é o movimento do glamour no rock, incluindo aí a performance, a teatralidade (com roupas e pinturas extravagantes) e a ambiguidade sexual. Não está tudo meio com cara de Secos & Molhados?
Muito bem, então. Sigamos daqui: os expoentes do Glam Rock são Roxy Music (primeiro disco em 1972), David Bowie (início da fase glam em 1971), T-Rex (início da fase glam em 1971) e Gary Glitter (esse eu nem sei quando começou a ser glam, acho que já nasceu assim...), tudo antes do disco de estréia dos Secos & Molhados, em 1973. Então a tese da cópia do Kiss fica meio comprometida. Fico muito mais com a tese de que eles, sim, seguiam uma corrente, mais especificamente a do Glam Rock, fonte da qual o Kiss também bebeu, não sem antes misturar algum sangue...
Houve um segundo disco dos Secos & Molhados, que até vendeu, com uma música (Flores Astrais) que até tocou, e algumas performances que até lotaram, mas talvez o mundo tenha mudado. Ney Matogrosso partiu, e o resto é outra história.
O que interessa aqui é que o primeiro disco, em formato vinil, caiu em minha mão uns 10 anos depois, e aí sim eu descobri a verdade: "O Vira" e "Sangue Latino" eram, literalmente, a ponta do iceberg. "Assim Assado", "Rosa de Hiroshima" e sobretudo "Prece Cósmica", a obscura das obscuras (e inspiradora do título deste post), formam um conjunto espetacular. Mais de 10 músicas, todas boas. Se você prestar atenção apenas no baixo de Willy Verdaguer já vai cair de costas. Para alguém como eu, nem tão fã assim da tal MPB, dá tranquilamente para classificar como um dos dez melhores discos brasileiros de todos os tempos.
Já o segundo disco, esse sumiu, e ficou, no máximo, habitando sebos até o início deste milênio (!) quando Charles Gavin, baterista dos Titãs, resolveu cavar as masters e reeditou os dois álbuns juntos. Essa edição está disponível por aí. É só comprar e curtir um dos melhores (e, em grande medida, desconhecidos) momentos da música brasileira.
Talvez dê para usar o título deste post, e sua menção ao teatro, para retomar o tema do Kiss e de sua pretensa "cópia" do visual dos Secos & Molhados. Pode aumentar a auto-estima brasileira (em tempos Olímpicos isso é muito conveniente), e então eu, como curioso e até estudioso, fui atrás, mas não consegui mesmo é nada. Fica aqui, por bem, estabelecido que isso deve ser mesmo exagero. E uma possível prova do exagero aparece quando tentamos enquadrar os Secos & Molhados em alguma corrente musical. A mais provável corrente para abrigá-los, em minha opinião, seria o Glam Rock, simplesmente porque o Glam Rock é o movimento do glamour no rock, incluindo aí a performance, a teatralidade (com roupas e pinturas extravagantes) e a ambiguidade sexual. Não está tudo meio com cara de Secos & Molhados?
Muito bem, então. Sigamos daqui: os expoentes do Glam Rock são Roxy Music (primeiro disco em 1972), David Bowie (início da fase glam em 1971), T-Rex (início da fase glam em 1971) e Gary Glitter (esse eu nem sei quando começou a ser glam, acho que já nasceu assim...), tudo antes do disco de estréia dos Secos & Molhados, em 1973. Então a tese da cópia do Kiss fica meio comprometida. Fico muito mais com a tese de que eles, sim, seguiam uma corrente, mais especificamente a do Glam Rock, fonte da qual o Kiss também bebeu, não sem antes misturar algum sangue...
Houve um segundo disco dos Secos & Molhados, que até vendeu, com uma música (Flores Astrais) que até tocou, e algumas performances que até lotaram, mas talvez o mundo tenha mudado. Ney Matogrosso partiu, e o resto é outra história.
O que interessa aqui é que o primeiro disco, em formato vinil, caiu em minha mão uns 10 anos depois, e aí sim eu descobri a verdade: "O Vira" e "Sangue Latino" eram, literalmente, a ponta do iceberg. "Assim Assado", "Rosa de Hiroshima" e sobretudo "Prece Cósmica", a obscura das obscuras (e inspiradora do título deste post), formam um conjunto espetacular. Mais de 10 músicas, todas boas. Se você prestar atenção apenas no baixo de Willy Verdaguer já vai cair de costas. Para alguém como eu, nem tão fã assim da tal MPB, dá tranquilamente para classificar como um dos dez melhores discos brasileiros de todos os tempos.
Já o segundo disco, esse sumiu, e ficou, no máximo, habitando sebos até o início deste milênio (!) quando Charles Gavin, baterista dos Titãs, resolveu cavar as masters e reeditou os dois álbuns juntos. Essa edição está disponível por aí. É só comprar e curtir um dos melhores (e, em grande medida, desconhecidos) momentos da música brasileira.
Para incitar a vontade de comprar os discos eu selecionei alguns trechos bem desconhecidos (e outro nem tanto) dos dois álbuns, em um "clip" de 3 minutos. É só clicar aqui e baixar. E, com isso, cumpre-se o desafio de falar de uma banda brasileira. E tinha que ser essa. E agora? Será que vou falar daquela banda?
domingo, 29 de junho de 2008
Os Secos, Os Molhados... e os curiosos
...se parece que você já leu este post, você talvez já tenha mesmo lido... Eu publiquei um post fora de ordem, porque inadvertidamente pulei a segunda parte do The Kinks... Mea culpa... Dá uma paginada que você vai achar o "elo faltante"...
Tem um filme bacana chamado the "The Good, The Bad and The Ugly" (O Bom, o Mau e o Feio, na tradução literal) que tem o Clint Eastwood e é realmente muito bom. Mas cinema é especialidade de um amigo meu, então só digo que o filme foi a base para o título deste post. Os curiosos que aparecem no plural são...eu. OK, ficou no plural apenas porque os outros dois estão no plural, não por algum sintoma de transtorno bipolar...
Mas quem são os Secos e quem são os Molhados? Os dois juntos são os Secos & Molhados (com "&", mesmo), uma banda que, à primeira vista, com 300.000 discos vendidos em dois meses nos idos de 1973, e no Brasil, pode parecer tudo menos obscura. Mas mesmo considerando o privilégio que dou às bandas obscuras, tenho alguns motivos para jogá-los aqui neste post. Fatos de muita relevância, pelo menos para mim.
Conheci Secos & Molhados pela "via pop", em 1973, através do rádio de minha mãe, que sempre ouvia algum programa AM (tipo Barros de Alencar, mesmo) enquanto cozinhava ou arrumava a casa. Não me pergunte se havia FM nessa época (isso é assunto de aficcionados em eletrônica), mas na casa de minha mãe rolava AM, com som péssimo, mas tenho saudade mesmo assim. E agora entendo que parte de minha cultura musical também é dessa época, ainda que Odair José realmente não toque em minha vitrola. Vitrola, veja só...
Secos & Molhados, lá no AM de minha mãe, eram "O Vira" e "Sangue Latino" e o disco, que não comprei à época porque eu não tinha nem dinheiro nem toca-discos, chamava-se também Secos & Molhados, e apresentava as quatro cabeças, dos quatro integrantes, em cima de uma bandeja, como se fossem deliciosas iguarias ou petiscos, literalmente secos e molhados. Teria surgido daí o nome da banda? Muito depois vim a saber que não, assim como vim a saber que o Ney Matogrosso não era o líder, foi o último a ingressar, e apenas era o performático carismático que deu estilo único à banda com seus trejeitos e sua voz.
O líder era o João Ricardo, que criou o nome três anos antes, mas só tinha o nome, sem ter a banda. Com certeza o "&" em vez de um simples "e" tem muito significado, mas ele nunca falou muito sobre isso (ou pelo menos eu não ouvi) e aí paramos só na suposição. Então fica estabelecido que o motivo da capa do disco tem relação com o nome, e não o contrário como alguém poderia pensar. E também fica estabelecido que quem encontrar o João Ricardo pela rua deve pedir para ele entrar neste blog e explicar o "&".
Também tem a história, nunca confirmada, de que o Kiss copiou deles a idéia de tocar com fantasias. Mas essa pode ficar para o próximo post, que conclui (ou não) o tema Secos & Molhados e te dá de presente um clip com trechos de músicas que vão te motivar a desencavar esse álbum por aí.
Tem um filme bacana chamado the "The Good, The Bad and The Ugly" (O Bom, o Mau e o Feio, na tradução literal) que tem o Clint Eastwood e é realmente muito bom. Mas cinema é especialidade de um amigo meu, então só digo que o filme foi a base para o título deste post. Os curiosos que aparecem no plural são...eu. OK, ficou no plural apenas porque os outros dois estão no plural, não por algum sintoma de transtorno bipolar...
Mas quem são os Secos e quem são os Molhados? Os dois juntos são os Secos & Molhados (com "&", mesmo), uma banda que, à primeira vista, com 300.000 discos vendidos em dois meses nos idos de 1973, e no Brasil, pode parecer tudo menos obscura. Mas mesmo considerando o privilégio que dou às bandas obscuras, tenho alguns motivos para jogá-los aqui neste post. Fatos de muita relevância, pelo menos para mim.
Conheci Secos & Molhados pela "via pop", em 1973, através do rádio de minha mãe, que sempre ouvia algum programa AM (tipo Barros de Alencar, mesmo) enquanto cozinhava ou arrumava a casa. Não me pergunte se havia FM nessa época (isso é assunto de aficcionados em eletrônica), mas na casa de minha mãe rolava AM, com som péssimo, mas tenho saudade mesmo assim. E agora entendo que parte de minha cultura musical também é dessa época, ainda que Odair José realmente não toque em minha vitrola. Vitrola, veja só...
Secos & Molhados, lá no AM de minha mãe, eram "O Vira" e "Sangue Latino" e o disco, que não comprei à época porque eu não tinha nem dinheiro nem toca-discos, chamava-se também Secos & Molhados, e apresentava as quatro cabeças, dos quatro integrantes, em cima de uma bandeja, como se fossem deliciosas iguarias ou petiscos, literalmente secos e molhados. Teria surgido daí o nome da banda? Muito depois vim a saber que não, assim como vim a saber que o Ney Matogrosso não era o líder, foi o último a ingressar, e apenas era o performático carismático que deu estilo único à banda com seus trejeitos e sua voz.
O líder era o João Ricardo, que criou o nome três anos antes, mas só tinha o nome, sem ter a banda. Com certeza o "&" em vez de um simples "e" tem muito significado, mas ele nunca falou muito sobre isso (ou pelo menos eu não ouvi) e aí paramos só na suposição. Então fica estabelecido que o motivo da capa do disco tem relação com o nome, e não o contrário como alguém poderia pensar. E também fica estabelecido que quem encontrar o João Ricardo pela rua deve pedir para ele entrar neste blog e explicar o "&".
Também tem a história, nunca confirmada, de que o Kiss copiou deles a idéia de tocar com fantasias. Mas essa pode ficar para o próximo post, que conclui (ou não) o tema Secos & Molhados e te dá de presente um clip com trechos de músicas que vão te motivar a desencavar esse álbum por aí.
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